Jogadores Pacientes

Reflexões de um jogador que sabe esperar.

Um texto de Greg Vendramini


Certamente você já ouviu a frase “a paciência é uma virtude”, provavelmente de alguma pessoa mais velha que você.

Nos jogos isso normalmente se confirma naquelas situações onde não podemos partir com tudo para cima e sim esperar o momento certo, como encontrar a abertura para um bom ataque no Dark Souls, guardar o turbo para um momento decisivo da corrida, ou reservar o especial para aquela hora que a tela está cheia de inimigos.

Mas hoje eu quero falar com vocês sobre um conceito que mudou minha forma de jogar videogame, e consequentemente, mudou a minha vida como um todo.


Jogadores Pacientes – Reflexões De Um Jogador Que Aprendeu A Esperar

Tudo começou, como sempre, no Reddit.

Vários anos atrás, antes da plataforma popularizar, eu era o único do meu círculo de amigos que a conhecia e utilizava.

Apesar da fama de lugar ruim e pessoas mesquinhas, o Reddit era -e continua sendo- o melhor lugar para qualquer tipo de assistência técnica.

Deu tela azul naquele seu game indie que você está rodando num Intel Celeron de 2002 movido à fumaça de carvalho?

Pergunta nos subreddits que alguém te ajuda.

Isso se já não vai achar a resposta de cara assim que digitar a pergunta seguida de “Reddit” no Google.

Ou no Bing, se você for como eu.

Pois bem.

Não lembro qual o problema exato que eu tive, mas pesquisei, e o resultado era um fio no subreddit de “patientgamers”.

Curioso pelo nome, cliquei na comunidade e automaticamente me identifiquei com eles.

O fórum é formado por pessoas que, por vários motivos, decidem esperar um tempo para jogar os jogos.

Lá é normal você encontrar relatos de pessoas que estão jogando pela primeira vez Portal 1 e 2, ou gente que em pleno 2023 está dando a primeira chance aos jogos do Mario (como eu).

Arte de Portal 2

A primeira impressão que isso pode passar é de que essas pessoas são alienadas, vivendo fora do ritmo normal e “perdendo” tudo o que está rolando.

E de fato, ninguém precisa abandonar tudo e jogar somente os títulos que já passaram de uma certa idade.

A iniciativa promove simplesmente que sejamos pacientes com o processo, já que no ritmo que a indústria dos games anda, é impossível que nós consigamos ir passo a passo.

Mas, por quê?

Primeiro de tudo, ser um jogador paciente é uma questão de não se deixar influir pelo “hype”, pela sempre crescente expectativa dos ciclos de lançamento.

Recentemente falamos aqui sobre como tudo tem sido orientado ao medo de perder a onda, ao famoso transtorno FOMO, e como acabamos comprando jogos e prestando atenção nos próximos sem nem mesmo ter acabado o que temos em mãos.

Todos os meses saem vários jogos bons, e já seja por tempo ou dinheiro, é praticamente impossível que você consiga jogar tudo que vai sendo lançado.

Só na primeira metade deste ano foram Diablo IV, Star Wars Jedi Survivor, Zelda, Street Fighter VI, Hogwarts Legacy, Dead Island 2, Resident Evil 4, e outros muitos.

E aí? Você jogou quantos desses?

Segundo, nós vivemos um momento em que os jogos, por essa pressa em ser lançado logo para dar lucro aos empresários, andam sendo lançados em estados bem… questionáveis.

Cada vez é mais comum ver bugs no lançamento, enormes patches e atualizações já no primeiro dia, funções que só são adicionadas depois de meses ou anos, conteúdo que é adicionado mais tarde, DLCs…

Quem joga no primeiro dia muitas vezes acaba jogando a pior versão do jogo tendo pago o preço mais alto.

Outro fator importante é o econômico.

Videogames são um hobby caro, e quem quer jogar os últimos lançamentos acaba tirando uma fatia grande do bolso para isso.

Mas, quem acaba esperando, tem sua paciência recompensada com ofertas fortíssimas, e de cara ainda leva uma versão melhorada do jogo, já com os bugs corrigidos, novos conteúdos, etc.

Mas, quem acaba esperando, tem sua paciência recompensada com ofertas fortíssimas, e de cara ainda leva uma versão melhorada do jogo, já com os bugs corrigidos, novos conteúdos, etc.

Para citar um exemplo recente, eu mesmo queria muito ter jogado o Calisto Protocol na data de lançamento, mas não foi possível.

Apenas quatro meses depois, acabei comprando o jogo por uma quinta parte de seu preço de lançamento.

O principal argumento em contra é que, como dizia aquela clássica tirinha do xkcd, você vai ser o cara que vai se empolgar com Portal 10 anos depois do lançamento quando a moda já passou e ninguém mais vai estar cantando a musiquinha.

Mas, será que passou mesmo?

Quantos memes de Skyrim nós não usamos até hoje, 12 anos depois do seu lançamento?

Alguém olha torto mesmo quando você cita alguma coisa de um jogo retrô?

Ou estamos simplesmente mais habituados com a propaganda massiva de que “olha, tem coisa nova aí, já viu?

Vamos falar da coisa nova”, para gerar mais engajamento?

Vamos imaginar aqui entre nós um jogo X, que pode ser chamado, por exemplo, Adventures in Bigode Land.

Como bom jogo AAA, ele vai ser lançado custando 80 dólares, que é o atual preço padrão dos jogos da nova geração.

Pois bem.

Passam os meses, o hype vai baixando, e conforme os jogos novos vão sendo lançados, o interesse na aventura de plataformas do nosso querido Capitão Barry vai vendendo menos, e chegam as ofertas.

6 meses depois, em uma das ofertas de verão que todas as lojas fazem, encontramos o nosso AiB sendo vendido por 20 dólares.

E é aí que eu me pergunto.

Se o principal fator que anima as pessoas à comprar o jogo no lançamento é a conversa das coisas do momento, vale a pena pagar 60 dólares por isso?

Eu não sei vocês, mas eu fico bem mais feliz guardando 3 ⁄ 4 do valor, converse com meus amigos depois ou não.

Não há meme, vídeo engraçadinho, nem conversa com os amigos em rede social que me faça pagar 4 vezes mais por um produto.

No final, é importante saber a diferença entre comprar um jogo porque você quer e vai jogar ele, e comprar um jogo porque está sendo manipulado para gastar dinheiro.

Nós mesmo damos muita atenção aos jogos mais antigos, mas aqui na redação, o nosso querido Capitão está contando os dias e acompanhando as novidades para o Mortal Kombat 1, enquanto eu era o primeiro da fila no lançamento do Star Wars Jedi Survivor.

Jogar lançamentos?

Sim, de vez em quando, mas não cair na armadilha de querer comprar tudo.

Imagine que os videogames, assim como alguns produtos mais específicos, são anunciados com um texto de “consuma com moderação”.

Não estamos falando tanto pelo tempo, mas pelo gasto.

Nos afastar do ciclo de lançamentos constante é como ser o amigo que não bebe ou não vai para balada, e ficar vendo os nossos colegas gastar fortunas com uma coisa que não faz tanto sentido para nós.

Inúmeras vezes eu já vi meus amigos comprar um jogo, não conseguir jogar por falta de tempo e obrigações do trabalho, e só jogar ele vários meses depois.

Já se tivessem comprado na hora de jogar, sobrava uma graninha ali.

Porque no fundo, o que nós queremos é isso. Que você jogue mais, jogue melhor, jogue para aproveitar as histórias, e não por medo de ficar de fora.

Que sobre mais dinheiro para você -seja para gastar em contas, em coxinha, em outros hobbies, ou claro, em outro jogos.

O jogo que é bom hoje vai ser tão bom ou até melhor daqui a 6 meses.

Não se preocupe.

Você não está de fora.


Créditos:

Texto e revisão por Greg Vendramini

Siga o Greg no Twitter: @Greg_Vendramini

Um agradecimento especial do Bigode ao Greg, por compartilhar este ótimo texto aqui na Bigode Games.

É uma verdadeira honra!


3 comentários em “Jogadores Pacientes”

  1. Excelente texto, Greg!

    As empresas estão usando técnicas cada vez mais eficazes, incentivando as pessoas a comprarem rapidamente.
    Itens exclusivos de pré-venda são um exemplo.

    Recentemente temos visto outro fenômeno estranho: o das produtoras que matam seus próprios jogos, reduzem o ciclo de vida do produto à força.

    Desligando servidores, retirando funcionalidades e forçando os jogadores a migrarem para os jogos mais novos o mais rapidamente possível.

    Mas quem aprende a olhar pra trás costuma se dar muito melhor.
    Temos excelentes jogos, apenas esperando para serem descobertos.

    De vez em quando pego uns jogos no lançamento, pra trazer aqui no site também.
    Mas não é raro me distrair com um jogo antigo e demorar pra jogar o novo.

    Um abraço e valeu pelo texto, me fez pensar bastante!

    Apenas um esclarecimento:

    Adventures in Bigode Land vai custar 90 dólares, terá exclusivos de pré-venda, microtransações com cosméticos, versão Deluxe, Season Pass (vai chamar Bigode Pass) e a customização dos bigodes dos personagens será cobrada à parte.

    Como é um jogo de estreia, pegarei leve na monetização.

    1. Obrigado pela visita, Barry!

      Pois é, cada vez somos mais empurrados a comprar coisas novas. Ou as atuais quebram, ou as empresas matam. Eu acho que, chegado um ponto, a empresa decide matar o produto que não está dando dinheiro e partir para outra ideia. Olha o Babylon Fall, por exemplo, que chegou a ter UMA pessoa jogando no Steam. Ficar pagando vexame daquele jeito dá uma imagem terrível para a empresa.

      As vezes eu compro alguns no lançamento também, mas ando me policiando muito sobre isso. Sempre que vou comprar pergunto “peraí, eu vou jogar agora? E seu jogar daqui a 6 meses? Vai mudar muito?” 2 de cada 3 vezes, eu deixo para depois.

      Já sobre o Bigode Land, não tem problema, eu pago o Bigode Pass sem reclamar (nome excelente, por sinal) . Tudo isso que você falou já é bem mais leve do que algumas empresas fazem, e sem dúvidas, é menos predador do que o que EU faria se lançasse o Greg III & Knuckles, que seria um modelo de live service com microtransações.

      1. Pois é, Greg, também acho que o caminho seja este!

        Também tenho feito este exercício, mas algumas vezes ainda coloco na balança se o jogo vai gerar algum conteúdo legal.
        Não sou encanado em cobrir tudo no lançamento, mas às vezes é legal trazer algo novo.

        Mesmo assim, de vez em quando quebro a cara e gasto dinheiro a toa.

        Agradeço muito pelo seu apoio!
        Quando o Bigode Pass (ótimo nome mesmo!) sair oficialmente, vou te enviar a carteirinha digital de assinante número 1.
        Que ao longo dos anos lhe dará o direito de pagar mais caro pelo Bigode Pass, acompanhando os ajustes anuais.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *